Calores da menopausa: terapia hormonal vira primeira escolha
Nova diretriz do American College of Physicians recomenda, com força máxima, a terapia com estrogênio como primeiro tratamento para ondas de calor e suores noturnos. Veja a ordem das opções.
Fonte:Annals of Internal Medicine (American College of Physicians) — Pharmacologic Treatments for Females With Menopausal Vasomotor Symptoms: A Clinical Guideline From the American College of Physicians

Conteúdo informativo. Não substitui avaliação médica. Canetas de GLP-1, peptídeos e hormônios exigem prescrição e acompanhamento. Ler o aviso completo.
Em 5 de outubro de 2026, o American College of Physicians (ACP), uma das maiores sociedades médicas dos Estados Unidos, publicou nos Annals of Internal Medicine uma diretriz sobre o tratamento das ondas de calor e dos suores noturnos da menopausa. A conclusão é direta: a primeira escolha é a terapia hormonal com estrogênio, com recomendação forte e evidência de alta certeza.
É uma virada de tom em relação às últimas duas décadas, em que o hormônio foi tratado como último recurso. Mas a pergunta que importa é outra: o que a diretriz recomenda exatamente, para quem, e o que ela não diz.
O que são os sintomas vasomotores
Ondas de calor e suores noturnos são chamados de sintomas vasomotores. Acontecem porque a queda do estrogênio desregula o centro do cérebro que controla a temperatura do corpo. São o sintoma mais típico da transição para a menopausa e podem durar anos.
Não são só desconforto. Calores noturnos fragmentam o sono, e sono ruim afeta humor, disposição e metabolismo, como mostramos no artigo sobre sono e envelhecimento biológico.
Como a diretriz foi feita
- Quem fez: o Comitê de Diretrizes Clínicas do ACP, com membros com conflito de interesse afastados da votação.
- Em que se baseou: uma revisão sistemática com meta-análise de 90 ensaios clínicos randomizados, publicada junto, além de dados de bula da FDA e da agência europeia (EMA) sobre riscos, e de custo-efetividade.
- Para quem vale: mulheres na perimenopausa ou na pós-menopausa que procuram tratamento para os sintomas.
As recomendações
| Linha | Opção | Força da recomendação | Certeza da evidência |
|---|---|---|---|
| Primeira | Estrogênio com progestagênio, para quem tem útero | Forte | Alta |
| Primeira | Estrogênio isolado, para quem não tem útero | Forte | Alta |
| Segunda | Desvenlafaxina ou venlafaxina (antidepressivos da classe IRSN) | Condicional | Moderada |
| Terceira | Escitalopram ou paroxetina (antidepressivos ISRS) | Condicional | Baixa |
| Terceira | Gabapentina | Condicional | Baixa |
| Terceira | Fezolinetanto ou elinzanetanto (antagonistas do receptor de neurocinina) | Condicional | Moderada |
Três pontos para entender a tabela:
- O progestagênio protege o útero. Estrogênio sozinho estimula o endométrio, a camada interna do útero. Quem tem útero precisa da combinação; quem retirou o útero pode usar só o estrogênio.
- Segunda e terceira linha são para quem não pode ou não tolera o hormônio. Não são alternativas equivalentes: entre as opções recomendadas, só o estrogênio reduziu na revisão ao mesmo tempo a frequência e a intensidade dos calores. As demais reduziram a frequência.
- A decisão é compartilhada. A diretriz pede que o médico discuta benefícios, riscos, contraindicações, outras doenças, preferências, custo e acesso antes de escolher.
O que a revisão mostrou
A meta-análise que sustenta a diretriz trouxe outros achados úteis:
- A eficácia do estrogênio variou com a dose, mas não com a via: adesivo, gel ou comprimido funcionaram de forma parecida.
- Estrogênio, antidepressivos das duas classes e os antagonistas de neurocinina melhoraram a qualidade de vida ligada à menopausa.
- Gabapentina, antidepressivos e antagonistas de neurocinina melhoraram a qualidade do sono.
- O estrogênio teve alto valor econômico, ou seja, bom resultado pelo que custa. O fezolinetanto teve valor baixo.
Os próprios autores da revisão apontam que a maioria dos estudos foi curta e não foi desenhada para medir riscos de longo prazo, como câncer de mama, trombose ou AVC. Os estudos observacionais que poderiam responder a isso não entraram na análise. A diretriz diz qual tratamento alivia melhor os sintomas; a avaliação de risco de cada mulher continua sendo do médico.
O olhar fisiológico
A diretriz confirma o que defendemos neste blog: na menopausa, repor estrogênio é devolver ao corpo um hormônio que ele deixou de produzir, para tratar sintomas causados justamente por essa falta. É reposição a nível fisiológico, com a menor dose eficaz, e não uma tentativa de “rejuvenescer” ou de chegar a níveis acima do normal.
Isso não faz da terapia hormonal algo para todas. Ela continua contraindicada em situações como câncer de mama, trombose ou AVC prévios, e a idade e o tempo desde a última menstruação mudam o equilíbrio entre benefício e risco. Explicamos essa janela no artigo sobre terapia hormonal na menopausa: por que o momento importa. E falamos do que a ciência diz sobre outros hormônios no envelhecimento em reposição hormonal fisiológica.
Diretriz não é receita. Implantes hormonais manipulados, “chips da beleza”, testosterona para mulheres sem indicação e doses definidas fora de consulta não são o tratamento recomendado e podem trazer riscos sérios. Algumas das opções da tabela também podem não estar disponíveis no Brasil. Converse com seu ginecologista ou endocrinologista.
Se as ondas de calor ou os suores noturnos estão atrapalhando seu sono, seu trabalho ou sua vida, não é algo para aguentar calada. Existe tratamento eficaz, e a diretriz mais recente coloca o hormônio na frente da fila. O caminho é conversar com o médico, rever o seu histórico e decidir em conjunto.
Fonte:Annals of Internal Medicine (American College of Physicians) — Pharmacologic Treatments for Females With Menopausal Vasomotor Symptoms: A Clinical Guideline From the American College of Physicians
Referências
- Qaseem A et al. Pharmacologic Treatments for Females With Menopausal Vasomotor Symptoms: A Clinical Guideline From the American College of Physicians. Ann Intern Med. 2026.
- Diem S et al. Pharmacologic Treatments for Female Menopausal Vasomotor Symptoms: A Systematic Review and Meta-analysis for the American College of Physicians. Ann Intern Med. 2026.
- American College of Physicians. ACP recommends hormonal therapy as a first-line treatment for menopausal vasomotor symptoms. Comunicado, 5 outubro 2026.
- Healio. ACP: Use hormone therapy as first-line treatment for menopausal vasomotor symptoms. 5 outubro 2026.


