Retatrutida: o que mostrou o estudo de fase 3 no NEJM
O agonista triplo da Lilly levou a perdas médias de até 28% do peso em 80 semanas. Entenda os resultados, os efeitos colaterais e por que ainda não é hora de usar.
Fonte:The New England Journal of Medicine (NEJM) — Retatrutide, a Triple Hormone Receptor Agonist, for Treatment of Obesity

Conteúdo informativo. Não substitui avaliação médica. Canetas de GLP-1, peptídeos e hormônios exigem prescrição e acompanhamento. Ler o aviso completo.
A retatrutida é a próxima geração das chamadas canetas emagrecedoras. O primeiro grande estudo de fase 3, o TRIUMPH-1, foi publicado no New England Journal of Medicine e chamou atenção pelo tamanho do efeito: perda média de até 28% do peso corporal em 80 semanas.
Os números são impressionantes. Mas a pergunta que importa aqui é outra: o que esse resultado significa para a saúde, e o que ainda não sabemos.
O que é a retatrutida
A semaglutida age em um receptor (GLP-1). A tirzepatida age em dois (GIP e GLP-1). A retatrutida é a primeira a agir em três:
- GLP-1 — aumenta a saciedade e retarda o esvaziamento do estômago.
- GIP — potencializa o efeito do GLP-1 sobre o apetite e o metabolismo da glicose.
- Glucagon — é a novidade. A ativação desse receptor é estudada por aumentar o gasto de energia e a mobilização de gordura, inclusive no fígado.
Por isso ela é chamada de agonista triplo. É um peptídeo, aplicado por injeção uma vez por semana, desenvolvido pela Eli Lilly. Se você quer entender a base, comece pelo nosso artigo sobre como funcionam a semaglutida e a tirzepatida.
Como foi o estudo
- Quem participou: 2.339 adultos sem diabetes, com IMC de 30 ou mais, ou de 27 ou mais com pelo menos uma condição ligada ao peso (hipertensão, colesterol alterado, apneia do sono ou doença cardiovascular).
- O que receberam: retatrutida 4 mg, 9 mg ou 12 mg por semana, ou placebo, divididos em quatro grupos de tamanho igual.
- Por quanto tempo: 80 semanas, cerca de um ano e meio. A dose começava em 2 mg e subia a cada 4 semanas até a dose do grupo.
Os grupos do estudo não são recomendação de dose. Mostram apenas o que foi testado sob acompanhamento clínico.
Os resultados
A tabela traz a perda média de peso em 80 semanas. O estudo apresenta duas análises. A primeira considera os participantes como se todos tivessem seguido o tratamento até o fim. A segunda inclui todo mundo que começou, mesmo quem parou no caminho, e por isso dá números um pouco menores e mais próximos da vida real.
| Grupo | Quem seguiu o tratamento | Todos que começaram |
|---|---|---|
| Retatrutida 4 mg | 19,0% | 17,6% |
| Retatrutida 9 mg | 25,9% | 23,7% |
| Retatrutida 12 mg | 28,3% | 25,0% |
| Placebo | 2,2% | 3,9% |
Outros dados que se destacam:
- Com 12 mg, 65,3% dos participantes saíram da faixa de obesidade (IMC abaixo de 30) e 33,3% chegaram ao IMC abaixo de 25.
- Em uma extensão para quem tinha IMC de 35 ou mais, a perda média com 12 mg chegou a 30,3% em 104 semanas.
- Houve melhora, em relação ao placebo, da circunferência da cintura, do colesterol não-HDL, dos triglicerídeos, da pressão sistólica e da proteína C-reativa, um marcador de inflamação.
- Em participantes com artrose de joelho, a dor caiu até 73%. Em quem tinha apneia do sono, os episódios de apneia por hora caíram até 61%.
Para comparar: no estudo de referência da tirzepatida, o SURMOUNT-1, a perda média foi de 15% a 21% em 72 semanas. A retatrutida foi mais longe, mas os estudos têm participantes e durações diferentes, então a comparação direta tem limites.
Efeitos colaterais
Os efeitos mais comuns foram gastrointestinais e aumentaram com a dose:
| Efeito | 4 mg | 9 mg | 12 mg | Placebo |
|---|---|---|---|---|
| Náusea | 28,8% | 38,4% | 42,4% | 14,8% |
| Diarreia | 25,2% | 34,1% | 32,0% | 13,5% |
| Constipação | 23,8% | 25,9% | 26,1% | 10,9% |
| Vômito | 10,6% | 22,8% | 25,3% | 4,8% |
| Disestesia | 5,1% | 12,3% | 12,5% | 0,9% |
| Infecção urinária | 7,5% | 8,8% | 8,4% | 5,3% |
Dois pontos merecem atenção:
- Disestesia é uma alteração da sensibilidade da pele, como formigamento ou sensação de queimação. Apareceu bem mais com a retatrutida do que com o placebo. Foi em geral leve a moderada e passou durante o tratamento, mas é um sinal que ainda precisa ser mais bem compreendido.
- Abandono por efeitos colaterais foi de 4,1% com 4 mg, 6,9% com 9 mg e 11,3% com 12 mg, contra 4,9% no placebo. Na dose mais alta, mais de um em cada dez participantes parou por não tolerar o remédio.
O olhar fisiológico
Perder 28% do peso não é, por si só, a meta. A meta é sair da faixa de risco: menos gordura no fígado e nas vísceras, pressão e glicose controladas, articulações aliviadas, sono melhor. Para muita gente, isso acontece bem antes de uma perda tão grande.
Três perguntas ainda estão em aberto:
- Quanto do peso perdido é músculo? Toda perda de peso expressiva leva junto parte da massa magra, e quanto mais rápida e maior a perda, mais isso importa. Treino de força e proteína suficiente continuam inegociáveis. Explicamos como no artigo sobre preservar massa muscular durante o tratamento.
- O que acontece no longo prazo? Os dados vão até 80 semanas, ou 104 em um subgrupo. Ainda não há resultados de eventos cardiovasculares nem de anos de uso.
- O que acontece ao parar? Com semaglutida e tirzepatida, a maior parte do peso volta quando o tratamento é interrompido. Até que existam dados sobre a retatrutida, o prudente é esperar o mesmo.
Ela já pode ser usada?
Não. A retatrutida não é aprovada pela FDA, nos Estados Unidos, nem tem registro na Anvisa. A Lilly informou que pretende pedir aprovação à FDA no primeiro trimestre de 2027. Se aprovada, a chegada ao Brasil depende ainda da avaliação da Anvisa.
Produtos anunciados como “retatrutida” em sites e redes sociais, muitas vezes rotulados como “para pesquisa”, não são o medicamento testado no estudo. Não há garantia de conteúdo, dose, pureza ou esterilidade, e o uso fica sem nenhum acompanhamento. Explicamos esse problema no artigo sobre peptídeos: o que tem evidência e o que ainda é promessa.
Se você tem obesidade ou sobrepeso com alguma doença associada, já existem tratamentos aprovados e com anos de dados de segurança. O caminho é conversar com um médico, fazer os exames e decidir em conjunto, sempre com o objetivo de devolver o corpo à faixa saudável.
Fonte:The New England Journal of Medicine (NEJM) — Retatrutide, a Triple Hormone Receptor Agonist, for Treatment of Obesity
Referências
- Retatrutide, a Triple Hormone Receptor Agonist, for Treatment of Obesity (TRIUMPH-1). N Engl J Med. 2026. DOI: 10.1056/NEJMoa2604169.
- Jastreboff AM et al. Triple-Hormone-Receptor Agonist Retatrutide for Obesity — A Phase 2 Trial. N Engl J Med. 2023;389:514-526.
- Eli Lilly and Company. Lilly's triple agonist, retatrutide, delivered powerful weight loss in pivotal Phase 3 obesity trial. Comunicado, 21 maio 2026.
- ClinicalTrials.gov. A Study of Retatrutide (LY3437943) in Participants Who Have Obesity or Overweight (TRIUMPH-1). NCT05929066.


